Publicidade Topo

A Trégua Frágil no Oriente Médio e a Fatura Política que Chega ao Brasil

Carlos Carvalho

CARLOS CARVALHO

9 abr, 20265 min leitura
A Trégua Frágil no Oriente Médio e a Fatura Política que Chega ao Brasil

A Trégua Frágil no Oriente Médio e a Fatura Política que Chega ao Brasil


Quando a diplomacia consegue desacelerar a guerra, mas não tem forças para desmontar o risco

Uma pausa, não uma solução

Há uma diferença enorme — e muitas vezes ignorada — entre uma pausa num conflito e o fim dele. O que esta quinta-feira trouxe foi, essencialmente, uma pausa.


Segundo a Reuters, Estados Unidos e Irã fecharam um cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão. Na teoria, um alívio. Na prática, os combates continuavam enquanto o acordo ainda estava sendo disputado entre as próprias partes. Israel, por sua vez, aproveitou o momento de indefinição para lançar seus maiores ataques recentes no Líbano. O mercado respirou, sim — mas respirou fundo demais para quem ainda está dentro d'água.

Dizer que houve descompressão é correto. Dizer que houve resolução seria desonesto.


O Estreito de Ormuz ainda não está aberto de verdade

O ponto que mais importa para quem acompanha energia e commodities continua sendo o Estreito de Ormuz — e ele ainda não voltou ao normal.

Navios continuam dependendo de permissão de Teerã para trafegar pela rota. O petróleo recuou para abaixo dos US$ 100 por barril, o que é, sim, um alívio em relação ao pico do conflito, mas não representa normalização nenhuma. O preço ainda está acima do que era antes de a tensão escalar.

Houve barateamento. Não houve estabilização. É uma distinção que faz toda a diferença para quem precisa planejar com horizonte além dos próximos quinze dias.


O Brasil montou uma engenharia fiscal que já começa a ranger

O governo brasileiro, como era de se esperar, não ficou imune ao choque externo. Em março, lançou um plano de subsídio ao diesel — uma decisão com custo real para os cofres públicos — e tentou compensar a conta com um imposto de 12% sobre exportações de petróleo.

O problema veio rápido. A Reuters noticiou que um tribunal federal concedeu liminar isentando algumas petroleiras internacionais da cobrança. A Petrobras não foi afetada, mas isso importa menos do que o sinal que a decisão emite: quando a arrecadação vira objeto de disputa judicial, o mercado não espera a sentença final para precificar o risco. Ele precifica na hora. E o prêmio sobe antes mesmo de qualquer resolução.

É o velho problema de governar com gambiarras. Elas funcionam enquanto ninguém puxa o fio errado.


O Banco Central caminha em terreno minado

Nilton David, diretor de Política Monetária do Banco Central, disse à Reuters que a leitura do choque do petróleo exige serenidade — e que a instituição segue em modo de calibração, com os juros ainda em território restritivo.

O Copom cortou a Selic para 14,75% em março, mas o Focus de 2 de abril mostrou IPCA projetado em 4,36% para 2026. Isso é muito perto do teto da meta. Perto demais para alguém que queira sair cortando juros com pressa sem correr o risco de ter que voltar atrás depois — o que seria, para qualquer banco central, uma humilhação cara.

A margem de manobra existe, mas é estreita. E qualquer novo solavanco externo encolhe ainda mais.


Não demorou muito para que a geopolítica virasse pauta política doméstica. A verdade é que, no ano eleitoral, ela nunca esteve totalmente fora.

Uma pesquisa da Reuters mostrou Lula e Flávio Bolsonaro empatados em simulação de segundo turno. O centro gravitacional do eleitor, segundo o levantamento, é o bolso. Não a política externa, não as alianças internacionais — o bolso.

E é exatamente por isso que cada oscilação no preço do combustível, cada notícia sobre juros, cada fatura de luz mais salgada tem peso eleitoral. A macroeconomia virou linguagem de campanha. O que antes era pauta de analista hoje é argumento de palanque.


A América Latina também não está num bom momento

Se alguém esperava que o contexto regional fosse compensar o cenário externo adverso, os números do Banco Mundial chegaram para desanimar. A projeção de crescimento para a América Latina e o Caribe em 2026 foi cortada para 2,1%. O Brasil, especificamente, foi projetado em 1,6% — abaixo da média regional.

Os motivos são os de sempre nessa parte do mundo: juros altos, demanda externa fraca, inflação que insiste em não ceder e tensões geopolíticas que ninguém aqui criou, mas todo mundo paga. O capital, como de hábito, prefere esperar um sinal mais claro antes de se comprometer. Investimento não gosta de névoa.


O que o investidor brasileiro deveria ter em mente agora

Para quem investe no Brasil com olho nesse cenário todo, algumas consequências práticas ficam evidentes.

O câmbio continua sensível a qualquer recrudescimento no Oriente Médio — e pode se mover rápido se a trégua rachar. A curva de juros segue vulnerável a qualquer novo ruído fiscal, especialmente depois da liminar que fez a engenharia tributária do governo hesitar. E o mercado acionário, nesse ambiente, tende a favorecer o que sempre favorece nos momentos de incerteza: empresas com caixa, com previsibilidade de receita e sem dependência de múltiplos esticados para justificar o preço.

Se a trégua se sustentar por essas duas semanas e abrir caminho para algo mais sólido, há espaço real para um alívio tático nos ativos. Se ela falhar — e há razões concretas para não descartarmos essa possibilidade —, o custo do risco volta a ser precificado na mesma velocidade em que o acordo tiver se desfeito.


CONCLUSÃO

O mundo ganhou algumas horas de respiração. Não ganhou estabilidade.

E o Brasil, como costuma acontecer, vai receber a conta da geopolítica internacional do jeito mais concreto e cotidiano possível: pela bomba de combustível, pelo extrato bancário e pela ansiedade que começa a moldar cada discurso de campanha.

A trégua pode durar. O risco, por enquanto, não foi embora.


👇🏼👇🏼👇🏼

LEITURA RECOMENDADA 

LIVRO: “Por que os líderes mentem: toda a verdade sobre as mentiras na política internacional” — John J. Mearsheimer

Por que vale a pena ler? Porque o livro mostra, de forma direta, como líderes usam a mentira como ferramenta estratégica de poder — seja para influenciar outros países ou a própria população. Uma leitura essencial para entender os bastidores reais das decisões geopolíticas e interpretar crises com mais lucidez.

👇🏼👇🏼👇🏼

👉 Clique aqui para acessar o livro na Amazon


Publicidade no Conteúdo

Gostou deste conteúdo? 🚀

Compartilhe e ajude mais pessoas a conquistarem a liberdade financeira!

Editor Chefe

Jornada do Investidor

Nossa missão é democratizar o acesso à educação financeira, trazendo conteúdos práticos e diretos para quem quer começar a investir e organizar suas finanças.

Conheça o autor →
Siga-nos:

Leia Também

Publicidade Rodapé