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Ethereum Após o PoS: Ativo Produtivo?

Carlos Carvalho

CARLOS CARVALHO

21 out, 20265 min leitura
Ethereum Após o PoS: Ativo Produtivo?

Deflação, Staking e a Tese do "Ativo Produtivo" em 2026: O Que a Fusaka Mudou, O Que uma Proposta Polêmica Pode Alterar e Onde o ETH Ainda Pode Decepcionar?


A promessa do "dinheiro ultrassom" e a conta que não fechou

Em setembro de 2022, a Ethereum trocou o motor com o avião em pleno voo. A migração para a prova de participação — a famosa Merge — reduziu a emissão de novos ETH em cerca de 90% em comparação com o mecanismo anterior de prova de trabalho. Com a queima de taxas, introduzida em 2021, nasceu o apelido ousado de "dinheiro ultrassom": numa rede movimentada, poderia ser queimado mais ETH do que se criava, fazendo a oferta total encolher.


Quatro anos depois, a realidade se mostrou menos poética. Mais de 4,6 milhões de ETH já haviam sido queimados desde a introdução desse mecanismo, mas a oferta total permanecia na casa dos 122 milhões de moedas — e, em determinados períodos, ainda crescia. O motivo é quase irônico. O sucesso das redes de segunda camada (as L2) permite processar transações com taxas menores, enquanto a ampliação da capacidade de dados da rede principal pode reduzir a pressão sobre os preços dos blobs. Bom para o usuário, mas potencialmente menos favorável à queima de ETH.


Fusaka: o que mudou na dinâmica da queima?


Em dezembro de 2025, a atualização Fusaka trouxe mudanças importantes para a escalabilidade da Ethereum. Entre elas estão o PeerDAS, que permite aos nós verificar a disponibilidade dos dados por amostragem, sem exigir que cada nó completo baixe todos os dados de cada blob, e a EIP-7918, que estabelece um piso de preço proporcional ao custo de execução dos dados publicados pelas L2.


Esse mecanismo ajuda a evitar que a taxa básica dos blobs permaneça artificialmente próxima de zero quando o custo de processamento na camada de execução é relevante. Mas há uma distinção importante: a Fusaka amplia a capacidade de processamento de dados e modifica a dinâmica de precificação dos blobs; ela não garante, por si só, que a queima de ETH aumentará continuamente. O resultado depende da demanda, da utilização da capacidade disponível e das taxas efetivamente cobradas.


Isso é deflação? Depende do período. Quem quer acompanhar usa o ultrasound.money, que mostra a emissão, a queima e a variação líquida da oferta. Tratar a Ethereum como deflacionária por definição é vender certeza onde só existe uma dinâmica variável.


Staking: quando o ETH passa a pagar "dividendo"


Pela lógica do PoS, quem mantém ETH em staking para participar da validação da rede recebe recompensas. É o staking, coração da narrativa do "ativo produtivo": um ativo que, além de oscilar de preço, pode gerar rendimento. Em agosto de 2026, cerca de 41,8 milhões de ETH estavam em staking — algo como 34% da oferta, contra aproximadamente 29% no começo do ano. O rendimento da camada de consenso girava em torno de 2,6% ao ano.


Para o leitor brasileiro, com a Selic em 13,75%, a comparação é inevitável — e ela é dura. Esses 2,6% são expressos em ETH, não em reais, e o preço da moeda pode devorar o ganho em um dia ruim. Além disso, o rendimento do staking não é diretamente comparável à taxa Selic: os riscos, a moeda de referência e as condições de remuneração são diferentes. Produtivo, sim. Renda fixa, nunca.


A pegadinha que quase ninguém conta


Uma parcela predominante das recompensas do staking vem de ETH recém-emitido — e a emissão dilui proporcionalmente a participação de quem não faz staking. Para o sistema como um todo, o "dividendo" é, em boa medida, uma transferência relativa de participação econômica de quem não recebe essas recompensas para quem participa da validação. O rendimento genuinamente associado à atividade econômica da rede, aquele que nasce de taxas pagas por usuários e de outras receitas de execução, é apenas uma parte do retorno total.


Por isso, a tese madura do ETH como ativo produtivo não está apenas na taxa de staking. Está também no uso da rede. Se a Ethereum gerar demanda suficiente por espaço de dados e processamento, as taxas podem remunerar participantes da rede e contribuir para a queima de moedas. Se essa demanda não se materializar, o rendimento pode representar sobretudo compensação pela diluição monetária, e não crescimento equivalente do valor econômico do ativo.


A proposta que pode reescrever a política monetária


Em julho de 2026, foi registrada a proposta EIP-8363, denominada "Tapered Issuance Burn", que ganhou discussão pública em agosto. Entre seus autores está Justin Drake, pesquisador associado à Ethereum Foundation. A ideia é queimar uma parcela crescente das recompensas de consenso dos validadores conforme aumenta a quantidade de ETH em staking.


Pelo desenho da proposta, a queima chegaria a 100% da emissão de consenso destinada às recompensas dos validadores quando o saldo total ativo alcançasse 60,25 milhões de ETH — aproximadamente metade da oferta considerada no cálculo. Segundo os cálculos apresentados na própria proposta, a implementação integral nas condições atuais reduziria o rendimento líquido da camada de consenso de cerca de 2,6% para aproximadamente 1,2% ao ano. Para evitar uma queda abrupta, a mudança seria introduzida gradualmente, ao longo de 18 meses.


Os defensores falam em menos diluição para quem mantém ETH fora do staking e em menores incentivos à concentração excessiva da validação. Os críticos questionam os efeitos sobre a atratividade econômica do staking, os pequenos validadores e as estruturas que dependem desse rendimento. Convém lembrar que se trata de um rascunho: a proposta não está aprovada nem tem implementação confirmada em uma atualização da rede.


O que olhar antes de acreditar na narrativa?


Três termômetros ajudam: o saldo líquido entre emissão e queima, a proporção de ETH em staking e a demanda real das L2 por blobs. Some os riscos que a propaganda esquece: volatilidade, penalidades para validadores e concentração do staking em poucos serviços.


O ETH pode, sim, ser um ativo produtivo. Mas essa produtividade depende de gente usando a rede, da sustentabilidade de sua economia e dos riscos assumidos por quem recebe as recompensas — e não de um número bonito no painel de staking. Este texto tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento.


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LIVRO: "Criptoativos: O Guia do Investidor Inovador para o Bitcoin e Além", de Chris Burniske e Jack Tatar.

Por que ler? Publicado em 2017, o livro ensina a avaliar criptoativos pelo uso, pela oferta e pela demanda, uma base útil para entender por que o valor do ETH também depende da atividade econômica de sua rede. Como foi publicado antes da Merge e da adoção do staking na Ethereum, não aborda diretamente esses mecanismos nem as mudanças posteriores na política monetária do ETH.

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