Além do Gráfico: Como o Modelo de Gordon revela se sua ação de dividendos está cara ou barata

CARLOS CARVALHO

Domine a matemática do Preço Justo e pare de investir no escuro usando a ferramenta definitiva de valuation para empresas maduras e geradoras de renda.
Existe uma frase que circula há décadas no mercado de ações e que nunca perdeu a validade: "Preço é o que você paga, valor é o que você leva." Para quem está começando, o número que aparece na tela da corretora é o único norte disponível — e tudo bem, é por ali que todo mundo passa. Mas para o investidor intermediário, aquele que já entende que preço e valor são coisas distintas, o verdadeiro desafio é outro: descobrir se o valor intrínseco de uma empresa realmente justifica o que o mercado está cobrando por ela hoje.
Quando o foco é a estratégia de dividendos — as chamadas "ações de renda" — poucas ferramentas conseguem ser ao mesmo tempo tão poderosas e tão elegantes quanto o Modelo de Crescimento de Gordon. Desenvolvido pelo economista Myron J. Gordon, esse modelo de valuation pega toda a complexidade do fluxo de caixa descontado e a destila para o que realmente interessa a quem busca viver de proventos: a capacidade de uma empresa de pagar dividendos de forma consistente, crescente e — idealmente — perpétua.
A lógica por trás da fórmula
A premissa central do modelo é direta: o valor de uma ação equivale à soma de todos os seus dividendos futuros, trazidos a valor presente. Em forma de equação, isso se traduz assim:
Onde P é o preço justo da ação, D₁ é o dividendo esperado para o próximo período, k é a taxa de retorno exigida pelo investidor e g é a taxa de crescimento perpétuo dos dividendos.
Simples na aparência, mas com uma profundidade técnica que merece respeito. A sensibilidade das variáveis aqui é enorme: se você exige um retorno de 10% ao ano e a empresa projeta crescimento de dividendos de 5%, qualquer ajuste mínimo nessas premissas pode alterar drasticamente o preço justo calculado. Uma mudança de meio ponto percentual em g, por exemplo, pode mover significativamente o resultado final.
Para quais empresas o modelo funciona — e para quais não funciona
Esse é um ponto que faz toda a diferença na aplicação prática. O Modelo de Gordon foi feito para empresas de setores perenes, previsíveis e com histórico consolidado de distribuição de lucros — o setor elétrico e o de saneamento são os exemplos mais clássicos no Brasil. No jargão do mercado, estamos falando das chamadas "vacas leiteiras": negócios maduros, com fluxo de caixa estável e sem a necessidade de reinvestir tudo para crescer.
Tentar aplicar o modelo em empresas de hipercrescimento — aquelas que ainda não distribuem dividendos e reinvestem cada centavo do lucro — é como usar uma chave de fenda para apertar um parafuso Phillips. A ferramenta errada para o trabalho errado.
Os limites que o investidor intermediário precisa conhecer
Toda ferramenta de precisão tem suas restrições, e ignorá-las é o caminho mais curto para uma análise equivocada. No caso do Modelo de Gordon, a principal restrição é matemática e inegociável: a taxa de retorno exigida (k) precisa ser obrigatoriamente maior do que a taxa de crescimento (g). Se a equação for invertida, o modelo quebra — e os resultados se tornam negativos ou tendem ao infinito, o que não faz sentido econômico algum.
Há ainda uma segunda camada de atenção que o contexto de 2026 torna ainda mais relevante: a premissa do crescimento perpétuo. Afirmar que uma empresa vai crescer 4% ao ano para sempre é uma afirmação bastante ousada num cenário de transições climáticas aceleradas, disrupções tecnológicas constantes e mudanças regulatórias imprevisíveis. A variável g exige, portanto, uma dose generosa de conservadorismo e senso crítico sobre a sustentabilidade real do modelo de negócio da companhia analisada.
O que o modelo entrega de mais valioso: a Margem de Segurança
Aqui chegamos ao ponto que transforma o Modelo de Gordon de um exercício matemático em uma vantagem competitiva concreta. Ao calcular que o preço justo de uma ação de energia é R$ 40,00 e observar que ela está sendo negociada a R$ 32,00, você tem em mãos algo muito mais sólido do que um palpite: tem uma evidência matemática de que o mercado está sendo pessimista em excesso — e que existe uma janela de compra com desconto real.
No Blog JI, defendemos com convicção que investir com base em fundamentos é o que separa o investidor racional do especulador emocional. Quando você conhece o valor do que possui, a volatilidade de curto prazo perde o poder de te assustar. As quedas deixam de ser ameaças e passam a ser o que realmente são: oportunidades de aumentar sua participação em bons negócios a um preço mais barato.
Preço é o que o mercado dita. Valor é o que você calcula. E quem aprende a diferença entre os dois nunca mais investe no escuro.
]
👇🏼👇🏼👇🏼
LEITURA RECOMENDADA
LIVRO: "Valuation - Como Avaliar Empresas e Escolher as Melhores Ações" – Autor: Aswath Damodaran.
Por que ler? Conhecido como o "Papa do Valuation", Damodaran explica de forma magistral como avaliar empresas e escolher ações usando modelos como o de Gordon, ajudando o investidor a identificar o valor real por trás dos números.
👇🏼👇🏼👇🏼
👉 Clique aqui para acessar o livro na Amazon
Gostou deste conteúdo? 🚀
Compartilhe e ajude mais pessoas a conquistarem a liberdade financeira!

Jornada do Investidor
Nossa missão é democratizar o acesso à educação financeira, trazendo conteúdos práticos e diretos para quem quer começar a investir e organizar suas finanças.
Conheça o autor →



