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O Mundo Negocia, o Brasil Empata

Carlos Carvalho

CARLOS CARVALHO

22 out, 20265 min leitura
O Mundo Negocia, o Brasil Empata

Como o alívio de sanções dos EUA à Rússia e a aceitação russa de negociações trilaterais abrem uma janela diplomática rara, e bem na semana em que o Brasil chega às vésperas do segundo turno mais apertado em décadas, com um rombo fiscal bilionário recém-aberto pelo Supremo


Moscou Aceita Sentar à Mesa


Há guerras que terminam com um tratado solene e há guerras que começam a terminar com um petroleiro. Nesta semana, foi a segunda opção que o mundo testemunhou. Depois de Donald Trump anunciar, na sexta-feira passada, o alívio de sanções e tarifas impostas à Rússia, o primeiro navio carregado com 40 mil toneladas de combustível russo zarpou rumo aos Estados Unidos — o início de um fluxo que Moscou promete repetir. No mesmo pacote de sinalizações, a Rússia aceitou a proposta americana de uma reunião trilateral com a Ucrânia, o primeiro gesto diplomático de substância desde que os tanques cruzaram a fronteira em 2022.


Ninguém deveria confundir isso com paz. É, na melhor leitura, o início de uma negociação que ainda vai exigir meses de desgaste, concessões recíprocas e, quase certamente, recaídas. Mas depois de quatro anos em que todo avanço diplomático durou menos que uma rodada de sanções, aceitar sentar à mesa já é notícia. E Trump, previsivelmente, soube transformar o momento em capital político doméstico: culpou publicamente Volodymyr Zelensky pela alta dos preços de combustível, atribuindo-a aos ataques ucranianos contra refinarias russas — uma acusação conveniente a poucas semanas das eleições de meio de mandato americanas, em novembro.


O Petróleo Não Sabe Para Que Lado Ir


O mercado de energia reagiu exatamente como reage sempre que duas forças empurram o preço em direções opostas: ficando paralisado. O Brent fechou nesta quarta-feira em leve alta de 0,03%, a US$ 108,82 o barril, depois de uma sessão inteira de indecisão. De um lado, o alívio das sanções russas sugere mais oferta global chegando ao mercado nos próximos meses. Do outro, ataques a embarcações no Estreito de Ormuz mantêm vivo o risco de interrupção numa das rotas mais estratégicas do planeta, e os estoques americanos caíram 3,06 milhões de barris na semana — sinal de demanda que não está arrefecendo.


O resultado é um barril que sobe pela manhã e devolve o ganho à tarde, incapaz de escolher entre o otimismo da diplomacia e a desconfiança da geopolítica. Para quem precisa precificar inflação, câmbio ou o próximo passo de qualquer banco central, essa indefinição é, paradoxalmente, mais difícil de administrar do que uma tendência clara em qualquer direção.


Quatro Pesquisas, Uma Só Resposta: Ninguém Sabe


Enquanto o mundo discute os termos de uma trégua, o Brasil discute os termos da própria eleição. Nesta quarta, quatro institutos divulgaram pesquisas de segundo turno no mesmo dia — um volume raro de dados que, em vez de dissipar a dúvida, confirmou que ela é real. A Palver deu a Flávio Bolsonaro 50% contra 48% de Lula. A Meio/Ideia mediu 48% a 46% em votos totais. A Quaest, mais próxima do empate técnico, apontou 45% a 44%. A Futura calculou 48,9% a 46,8%. A média das 27 pesquisas já registradas no TSE fecha em 48% para Flávio e 45,4% para Lula.


Quatro institutos, quatro metodologias, quatro números ligeiramente diferentes — e um único veredito comum: a vantagem existe, é consistente, mas é pequena demais para qualquer um dos dois lados comemorar antes de domingo. O debate marcado para esta sexta-feira na Band, dois dias antes da votação, é hoje o único evento com peso suficiente para mexer numa margem que já não se move há duas semanas.


O Supremo Cobra Caro do Tesouro


E se a política entrega incerteza, o Judiciário entregou, nesta quarta, uma certeza nada agradável para o Palácio do Planalto. Por 6 votos a 5 — com voto de desempate do ministro Luiz Fux acompanhando o entendimento do já aposentado Celso de Mello —, o Supremo Tribunal Federal excluiu o ISS da base de cálculo do PIS e da Cofins. A decisão beneficia diretamente empresas prestadoras de serviço e representa, segundo projeção da própria Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026, um impacto fiscal de até R$ 35,4 bilhões para a União.


O timing é cruel por acidente, não por conspiração: qualquer que seja o vencedor de domingo, herdará um buraco fiscal que não existia na véspera. Decisões do Supremo não respeitam calendário eleitoral, e esta em particular chega precisamente quando o próximo governo — seja ele qual for — mais precisaria de previsibilidade orçamentária para construir credibilidade com o mercado.


Quatro Dias, Duas Velocidades


Reunindo as peças: o mundo lá fora encontrou, pela primeira vez em anos, uma janela real de desescalada — ainda frágil, ainda reversível, mas real. O Brasil, ao mesmo tempo, caminha para a eleição mais disputada em décadas carregando um rombo fiscal recém-aberto e uma margem eleitoral fina demais para qualquer certeza. Ibovespa e dólar já refletem essa dualidade: a bolsa recuou 0,86% nesta quarta, a 206.495 pontos, e o dólar subiu a R$ 5,03, num movimento clássico de busca por proteção diante do desconhecido.


Não existe fórmula que converta pesquisa eleitoral em certeza antes do domingo, nem negociação diplomática em paz antes da assinatura. O que existe, para quem investe ou governa, é a obrigação de reconhecer quando o jogo ainda está em aberto — e de não confundir o desejo de clareza com a clareza em si. Faltam quatro dias. Cada um deles ainda pode mudar o resultado.


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LEITURA RECOMENDADA 

Livro: "Como Chegar ao Sim" – Autores: Roger Fisher, William Ury e Bruce Patton.

Por que ler? O clássico do Projeto de Negociação de Harvard explica por que acordos duradouros — entre nações, entre candidatos, entre um governo e o mercado que o avalia — nascem de interesses reconciliados, não de posições irredutíveis. Leitura oportuna tanto para entender o que separa Washington e Moscou de um acordo real quanto para acompanhar, nos próximos dias, se o vencedor de domingo saberá negociar com um Congresso e um mercado que não lhe devem nenhuma certeza antecipada.

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