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Tesouro Selic Também Oscila: Entenda o Ágio e o Deságio que Ninguém Te Contou

Carlos Carvalho

CARLOS CARVALHO

4 jun, 20265 min leitura
Tesouro Selic Também Oscila: Entenda o Ágio e o Deságio que Ninguém Te Contou

O título mais conservador do Brasil pode registrar variação negativa no curto prazo — e saber por quê é o que separa o investidor tranquilo do que vende na hora errada

O "investimento sem risco" que surpreende quem não conhece seus bastidores

Existe uma crença bastante difundida entre investidores de todos os perfis: o Tesouro Selic é infalível, linear, absolutamente estável. E faz sentido que essa percepção exista — afinal, ele é pós-fixado, ou seja, acompanha a taxa básica de juros do país. Não tem como dar errado, certo?

Quase. Há um mecanismo pouco discutido que pode fazer o extrato do Tesouro Selic exibir, em determinados dias, uma rentabilidade ligeiramente negativa. Não é erro de sistema. É a marcação a mercado.


Como funciona a precificação do Tesouro Selic

O Tesouro Selic — tecnicamente chamado de LFT, Letra Financeira do Tesouro — tem seu preço atualizado diariamente pela variação da taxa Selic acumulada desde a compra. Até aí, tudo previsível. O ponto que gera confusão é que, além da Selic, o preço do título carrega um componente adicional: o spread, expresso como ágio ou deságio.


O deságio é um desconto sobre o valor teórico do título. Quando o Tesouro vende uma LFT com deságio, o investidor paga menos do que o valor nominal — e, portanto, terá uma rentabilidade final ligeiramente superior à Selic pura. No site do Tesouro Direto, o deságio aparece com sinal positivo, justamente porque representa ganho extra para quem compra.

O ágio é o inverso: o título é negociado acima do valor teórico, o que reduz a rentabilidade efetiva do investidor em relação à Selic.

Esses spreads são determinados pelas forças de oferta e demanda no mercado secundário de títulos públicos.


Por que o extrato pode mostrar queda?

Quando há deterioração do cenário fiscal, incertezas políticas relevantes ou estresse nos mercados financeiros, os investidores institucionais vendem LFTs para reduzir exposição ou levantar caixa. Essa pressão vendedora eleva o deságio do título — o que, na marcação a mercado diária, produz uma queda temporária no preço unitário.


Foi exatamente o que aconteceu em setembro de 2021, quando o Tesouro Selic 2025 chegou a registrar rentabilidade negativa de 0,46% no mês — um evento raro, mas real, provocado por preocupações com o cenário fiscal brasileiro e deságios que chegaram próximos a 0,35% ao ano.

Em condições normais, a magnitude desses spreads é pequena. Historicamente, o deságio da LFT tem oscilado numa faixa bastante estreita — na casa de 0,10% a 0,20% ao ano — e seu impacto no dia a dia é quase imperceptível para quem carrega o título até o vencimento.


O que isso muda na prática para o investidor?

Para quem mantém o Tesouro Selic até o vencimento, absolutamente nada. O título sempre será resgatado pelo valor cheio, acrescido da Selic acumulada e do spread contratado na compra. As oscilações de curto prazo são ruído.

O risco real existe apenas para quem vende antes do vencimento em momentos de estresse — e mesmo nesses casos, o impacto costuma ser modesto em comparação com a volatilidade de outros ativos.


Entender esse mecanismo tem dois efeitos práticos: o primeiro é a tranquilidade de não entrar em pânico ao ver o extrato com um número ligeiramente menor num dia ruim de mercado. O segundo é a capacidade de avaliar, com mais precisão, se o deságio corrente oferece uma oportunidade de entrada interessante ou não.

O Tesouro Selic continua sendo um dos melhores instrumentos de preservação de capital com liquidez disponíveis no mercado brasileiro. Mas tratá-lo como uma caixa mágica que nunca varia é subestimar o mercado — e isso nenhum investidor intermediário pode se dar ao luxo de fazer.


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Por que ler? O clássico de Gunther ensina que todo investimento carrega alguma dose de risco — inclusive os considerados "seguros". Compreender o comportamento do ágio e do deságio no Tesouro Selic é, em essência, aprender a gerenciar a incerteza com racionalidade, exatamente o que os banqueiros suíços praticavam.

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