O Mundo Que Queima — e o Brasil Que Oscila no Meio

CARLOS CARVALHO

Da guerra no Golfo Pérsico ao Copom em Brasília, uma semana definiu o tom do que vem pela frente: petróleo acima de US$ 110, Selic sem data para cair e um planeta que negocia na beira do abismo
Há um fio invisível que liga Teerã ao Ibovespa
Existe uma tendência, compreensível mas perigosa, de tratar geopolítica como coisa de embaixador. Como se as crises que explodem do outro lado do planeta fossem problemas de outros povos, outras moedas, outras bolsas. A semana que termina desmentiu essa ilusão com a brutalidade dos fatos.
Na segunda-feira, 18 de maio, o dólar fechou abaixo de R$ 5. O motivo imediato não foi nenhuma decisão do Banco Central brasileiro, nenhum dado fiscal revelador, nenhuma boa notícia vinda do Congresso em Brasília. O motivo foi uma declaração de Donald Trump — feita a bordo do Air Force One, a quilômetros de distância — sugerindo que as negociações com o Irã estavam avançando. Isso bastou para que o real se apreciasse, o Ibovespa reduzisse perdas e o mercado respirasse por algumas horas.
Isso não é coincidência. É a anatomia do mundo em 2026.
O Estreito que controla a temperatura do planeta
Desde fevereiro, quando as forças americanas e israelenses lançaram a Operação Fúria Épica contra instalações iranianas, o Estreito de Ormuz — aquela faixa de água de menos de três quilômetros de largura navegável, entre o Irã e Omã — tornou-se o ponto mais monitorado do globo. É por ali que passa cerca de um quinto de todo o petróleo negociado no mundo. Um quinto. Não é pouco. É o suficiente para, uma vez bloqueado, disparar uma crise energética de proporções que os mercados já estavam calculando desde março.
O barril do tipo Brent chegou a US$ 112 na segunda-feira. Para fins de comparação: antes do conflito, em fevereiro, girava em torno de US$ 66.
Quase setenta por cento de alta em três meses. Esse é o preço de uma guerra no Oriente Médio.
O Paquistão, que assumiu o papel de mediador desta crise, entregou aos Estados Unidos uma proposta revisada do Irã para encerrar os combates. Trump respondeu com o que lhe é característico: um pouco de ameaça, um pouco de abertura, nada definitivo. O Irã, por sua vez, disse que qualquer acordo precisa ser abrangente — o que na prática significa que não aceita apenas parar de atirar enquanto mantém o Estreito fechado. A guerra diplomática continua. E enquanto ela continua, o petróleo oscila. E enquanto o petróleo oscila, o mundo inteiro sente.
O Brasil não está de fora dessa equação. Longe disso.
Pequim recebeu Trump. O mercado esperava mais
A semana anterior foi marcada por outra movimentação que, em tempos normais, seria o acontecimento do ano: Donald Trump visitou Pequim entre os dias 13 e 15 de maio, encontrou-se com Xi Jinping no Grande Salão do Povo e anunciou acordos comerciais que descreveu, com a habitual modéstia, como "fantásticos."
O mercado não concordou com o adjetivo.
A promessa mais concreta foi a de que a China compraria 200 aeronaves da Boeing. As ações da fabricante americana caíram quase quatro por cento logo após o anúncio. O mercado havia precificado algo bem mais robusto — entre 500 e 750 aviões, segundo fontes da indústria. Duzentos foi entendido como sinal de que o acordo estava aquém do esperado. Nenhum contrato foi publicado. Nenhum cronograma foi confirmado.
Nos dias que se seguiram, os desdobramentos continuaram. Nesta quarta-feira, o Ministério do Comércio da China anunciou disposição para trabalhar com Washington em reduções recíprocas de tarifas sobre produtos de valor equivalente. Analistas da Pinpoint Asset Management foram diretos: não é suficiente para alterar as projeções de PIB. É um passo. Pequeno, mas na direção certa.
O pano de fundo, porém, é sombrio. Na mesma cúpula em que sorriu para as câmeras ao lado de Trump, Xi Jinping fez questão de registrar, por meio da mídia estatal chinesa, que erros americanos sobre Taiwan poderiam "empurrar os dois países para um conflito." Não foi retórica. Foi cálculo. Xi sabe que Trump gosta de acordos comerciais — e que a pressão sobre Taiwan é a moeda de troca que Pequim guarda para quando os acordos comerciais deixarem de interessar.
Para o Brasil, o cenário importa de forma direta. A China é o principal destino das exportações brasileiras — soja, minério de ferro, petróleo. Qualquer arrefecimento na demanda chinesa, causado por uma guerra comercial mais intensa com os Estados Unidos, comprime as receitas do agronegócio e do setor mineral, dois pilares da balança comercial que sustentam o real.
Galípolo foi ao Senado. E disse o que ninguém esperava ouvir
Enquanto o mundo queimava lá fora, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sentou-se diante da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado na terça-feira, 19 de maio, e entregou algo raro no vocabulário de qualquer autoridade monetária: uma confissão.
Não no sentido dramático, evidentemente. Mas o reconhecimento de que, em seis dos últimos anos, o Banco Central deixou de cumprir a meta de inflação em quatro deles, e que isso "sugeriria que o Banco Central talvez tenha sido pouco conservador" — essa frase, dita em público, por um presidente de Banco Central, não é trivial. Significa que a instituição reconhece, internamente, que errou para o lado da frouxidão em algum ponto do ciclo. E que não está disposta a repetir o erro.
A tradução prática é imediata: a Selic, hoje em 14,5% ao ano, não tem data marcada para cair.
Galípolo foi além. Explicou, com didatismo que surpreendeu parte dos senadores, o mecanismo que torna a política monetária brasileira singularmente difícil: o Pix bancarizou milhões de pessoas que anteriormente estavam à margem do sistema financeiro. Essas pessoas passaram a ter acesso a cartão de crédito, a financiamentos, a consumo a prazo. O resultado é um aumento estrutural da demanda que pressiona preços — e que a taxa de juros, por si só, consegue conter com mais dificuldade do que os modelos tradicionais supõem.
Some-se a isso: desemprego em mínimas históricas. Renda crescendo acima da inflação. Atividade econômica resiliente mesmo com a Selic restritiva. O Banco Central está diante de um paradoxo: os próprios indicadores de sucesso econômico se tornaram obstáculos ao controle da inflação.
O boletim Focus, divulgado na mesma semana, sintetizou o humor do mercado: a projeção para a Selic no fim de 2026 subiu para 13,25% ao ano. Juros elevados, portanto, chegando até o calendário eleitoral. Com tudo que isso implica.
O gasto que o mercado viu e não gostou
Na terça-feira, em São Paulo, o presidente Lula assinou a medida provisória que cria o Move Aplicativos — um programa de R$ 30 bilhões em crédito subsidiado, operacionalizado pelo BNDES, destinado a motoristas de aplicativo e taxistas para a compra de veículos novos. O evento reuniu ministros, ex-ministros, sindicatos, representantes da Febraban e da Anfavea, e foi conduzido com a pompa de um lançamento eleitoral — o que, a 18 meses das próximas eleições, não é exatamente uma coincidência.
O programa tem uma racionalidade econômica real: modernizar a frota, reduzir custos de manutenção e formalizar uma categoria que vive à margem de qualquer proteção trabalhista consolidada. Nada disso é falso.
Mas há um detalhe que o mercado não ignora: R$ 30 bilhões injetados via crédito subsidiado aumentam a demanda agregada numa economia que já opera próxima do pleno emprego — exatamente o cenário que Galípolo descreveu, no dia seguinte, como o principal fator que impede a queda dos juros. O governo, portanto, acelerou o acelerador enquanto o Banco Central mantém o freio no chão.
Essa contradição não é nova. Mas ela ficou mais exposta nesta semana do que em qualquer outra.
O que tudo isso significa para o investidor
O cenário que emerge desta semana é de uma complexidade que não admite simplificações. Há um conflito militar em curso no Oriente Médio com poder de mover o preço do petróleo em dezenas de dólares por barril, dependendo de uma declaração, de um drone abatido ou de uma proposta de mediação. Há uma disputa comercial entre as duas maiores economias do planeta que ainda não encontrou resolução — e cujos desdobramentos afetam diretamente as exportações brasileiras. E há, internamente, uma política monetária que sinaliza firmeza enquanto a política fiscal aponta na direção oposta.
Para o investidor brasileiro, o recado é preciso: o ambiente de juros elevados por mais tempo não é um acidente nem um exagero do Banco Central. É a resposta racional a um conjunto de pressões que não se dissipam com otimismo. A renda fixa, nesse contexto, mantém sua atratividade estrutural — mas sem ilusão: o prêmio existe porque o risco existe.
O câmbio vai continuar sensível ao noticiário do Oriente Médio. Cada sinal de cessar-fogo tende a apreciar o real. Cada escalada tende a depreciar. Navegar esse ambiente exige frieza, diversificação e, sobretudo, recusa em operar com base em titulares de Twitter — ou de Truth Social.
O mundo que queima lá fora não pede licença para entrar. Ele simplesmente aparece, de repente, no preço do dólar, no custo do combustível e na taxa do seu financiamento imobiliário.
Conclusão
Existe uma frase atribuída ao ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger que diz mais ou menos assim: quem domina o petróleo controla as nações. O Estreito de Ormuz, neste maio de 2026, transformou essa afirmação em notícia de última hora.
O Brasil não tem tropas no Golfo Pérsico. Não tem embaixador na negociação entre Washington e Teerã.
Não participa dos conselhos bilaterais que Trump e Xi estão montando. Mas está exposto a tudo isso — pelo câmbio, pelo petróleo, pela demanda chinesa por commodities, pela pressão inflacionária que força o Banco Central a manter a Selic onde está.
Ignorar a geopolítica como se fosse coisa de jornalista de TV não é prudência. É um erro que o mercado cobra em tempo real.
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LEITURA RECOMENDADA
LIVRO: "Ordem Mundial", de Henry Kissinger.
Por que ler? Em um momento em que o Estreito de Ormuz define o preço do petróleo global, a China e os EUA negociam a ordem do comércio mundial e o Brasil oscila ao sabor de cada declaração diplomática, Kissinger oferece a mais lúcida e impiedosa análise já escrita sobre como as potências constroem — e destroem — os sistemas de equilíbrio que governam o planeta. Leitura obrigatória para quem quer entender o que está acontecendo agora, não amanhã.
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