Copom Para, Lula Adia, Trump Perde

CARLOS CARVALHO

O alívio veio de Washington, mas a conta fica aqui
Trump Perde o Congresso Inteiro
Em 23 eleições de meio de mandato entre 1934 e 2022, só três presidentes ampliaram a bancada na Câmara: Roosevelt, Clinton e George W. Bush. Donald Trump não chegou perto de entrar na lista. Os democratas retomaram a Câmara e o Senado na terça-feira, e as projeções da CNN os colocam em 54 a 44 no Senado, com Alasca e Mississippi ainda por fechar, e em mais de 230 cadeiras na Câmara, 27 delas tomadas dos republicanos. No Texas, estado que Trump venceu por quase 14 pontos em 2024, o democrata Talarico, de 37 anos, derrotou o candidato republicano. Quando o Texas muda de lado, o resto do mapa dispensa comentário.
Trump fez o que o mercado mais queria ver: aceitou o resultado, e disse à CNBC que enxerga espaço para trabalhar com os democratas em muito mais frentes do que se imagina. Para Wall Street, o placar importou menos que o desfecho, uma eleição decisiva e sem contestação. O Dow Jones saltou 3,03%, a 53.356 pontos, o melhor dia desde abril de 2025 e o maior ganho no dia seguinte a uma eleição de meio de mandato desde 1982. O S&P 500 subiu 1,58%, o Nasdaq 1,44%, e o índice de volatilidade perdeu perto de 20%. O investidor americano reencontrou uma preferência antiga: governo dividido a governo imprevisível. Um estrategista da LPL lembrou que o S&P 500 costuma avançar cerca de 15%, em média, nos doze meses seguintes a essas eleições.
O Barril Reage Antes da Diplomacia
O petróleo foi o primeiro a precificar a derrota. O Brent para janeiro despencou 8,66%, de US$ 103,60 para US$ 94,62, depois de tocar queda de 10% ao longo do pregão, e fechou abaixo de US$ 100 pela primeira vez desde o início de outubro. O WTI foi a US$ 88,12, o menor valor desde agosto. A lógica do mercado cabe numa linha: um Congresso hostil encurta a corda de uma guerra que ninguém quer pagar. Trump e o vice, JD Vance, admitiram que a derrota republicana carrega a marca do conflito com o Irã. Em entrevista ao Financial Times, o presidente disse não ter planos imediatos de novos ataques e acrescentou que o país está pronto para o combate, se necessário, mas que talvez nem haja motivo. Os líderes democratas Hakeem Jeffries e Chuck Schumer pediram o fim imediato da guerra. Teerã chamou o resultado de mensagem clara e avisou que, se for ignorada, as consequências irão muito além do que o mundo já viu.
Convém separar hipótese de fato. Os novos parlamentares só tomam posse em janeiro, e até lá as decisões sobre o Irã continuam onde sempre estiveram, na Casa Branca. O mercado pagou adiantado por uma saída diplomática que ainda não existe. Sem diplomacia, o petróleo tende a devolver a queda em poucas sessões.
O Copom Fecha a Torneira
Em Brasília, o Copom escolheu a mesma quarta-feira para frear. Manteve a Selic em 13,75% ao ano, por unanimidade, e interrompeu a sequência de cinco cortes de 0,25 ponto iniciada em março, quando a taxa estava em 15%. A maior parte do mercado já esperava a pausa, embora uma ala ainda apostasse em mais um corte. O comunicado explica o motivo sem rodeios: o ambiente externo ficou mais adverso com o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio, que empurram para cima o petróleo e seus derivados, e com a política monetária mais dura nas economias avançadas. O comitê diz monitorar a desancoragem das expectativas de inflação em prazos mais longos e acompanhar de perto o impacto da política fiscal doméstica sobre a política monetária e os ativos financeiros. Sobre dezembro, silêncio.
O Focus da véspera já tinha dado o recado. No primeiro boletim depois da reeleição de Lula, a projeção de inflação para 2026 foi a 5,22%, acima do teto de 4,5% da meta. O dólar de fim de ano saltou de R$ 5,05 para R$ 5,34. A Selic projetada para 2027 subiu de 11,75% para 12,50%. E o PIB deste ano recuou para 1,76%, a terceira revisão para baixo seguida. Câmbio mais alto, inflação mais alta, crescimento mais baixo: a trinca que nenhum banco central gosta de ver. Há uma ironia involuntária no comunicado, que cita a pressão do petróleo num dia em que o barril perdeu quase 9%. Em política monetária, o retrovisor costuma pesar mais que o para-brisa.
Lula Ganha Tempo, o Mercado Gasta Paciência
Resta saber quem vai administrar a conta. Lula decidiu não antecipar o nome do ministro da Fazenda do quarto mandato como gesto ao mercado. A escolha só deve sair depois de uma viagem que começa na próxima semana, com a COP31 na Turquia, e termina no fim de novembro. Nos bastidores, circulam os nomes de Rafael Fonteles, governador do Piauí, de Dario Durigan, atual ministro, e do vice-presidente Geraldo Alckmin, além de Bruno Moretti, do Planejamento. Quem espera um nome, porém, vai ouvir antes uma voz. Segundo o Estadão, Lula fará pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV neste domingo, dia 8, para prometer responsabilidade fiscal sem abandonar as promessas de campanha. Medidas de contenção de gastos e de aumento de arrecadação, discutidas com Durigan e Moretti, viriam nas semanas seguintes.
É o oposto do que o mercado pediu: palavras sem nomes. Na campanha, segundo o Estadão, o presidente chamou o superávit primário de “babaquice” e lançou um pacote que passa de R$ 400 bilhões. O ministro Durigan, por sua vez, prometeu ajuste sem “cavalo de pau”. Entre uma frase e outra, o investidor fica com o que sempre fica: a conta.
Os números dizem onde está o humor. O Ibovespa acumulou seis quedas seguidas depois da eleição e fechou a terça-feira em 165.529 pontos, o menor nível desde janeiro e perto de 20% abaixo do fechamento da sexta-feira anterior ao segundo turno. O dólar encerrou a R$ 5,49, nas máximas do ano. O respiro de quarta, com a bolsa subindo 1,23%, a 167.563 pontos, e o dólar recuando a R$ 5,45, não nasceu em Brasília. Veio de Nova York, na carona do Dow e do petróleo.
O Que Washington Não Resolve?
A semana mostrou dois tipos de problema, e só um deles se resolve no calendário de Washington. O alívio externo é real, mas condicional: depende de uma diplomacia que ainda não começou e de um Congresso que ainda não tomou posse. O Federal Reserve, que manteve os juros entre 3,75% e 4% na semana passada, com duas dissidências a favor de nova alta, deixou aberta a porta para um aperto em dezembro. O alívio do dólar lá fora dura enquanto o Fed não decidir o contrário.
O problema doméstico não chega pelo correio de Washington. Um governo reeleito ainda não disse quem fará a conta fechar. Um Banco Central já avisou que está de olho na política fiscal. E um mercado que errou feio na urna não quer errar de novo na confiança. Lula tem até o fim do mês para escolher um nome; o investidor tem até domingo para decidir se discurso basta. Alívio importado dura o que dura a maré lá fora. Credibilidade fiscal só se fabrica em casa.
👇🏼👇🏼👇🏼
LEITURA RECOMENDADA
LIVRO: "O Federalista" – Autores: Alexander Hamilton, James Madison e John Jay.
Por que ler? Escritos em 1787 e 1788 para defender a Constituição americana, esses ensaios explicam por que o poder precisa de freios: um Legislativo capaz de contrariar o Executivo e um sistema em que a ambição de cada poder contenha a do outro. Leitura oportuna para a semana em que Wall Street comemorou um governo dividido e em que o Brasil descobriu, mais uma vez, que previsibilidade depende de contrapesos, não de boas intenções.
👇🏼👇🏼👇🏼
👉 Clique aqui para acessar o livro na Amazon
Gostou deste conteúdo? 🚀
Compartilhe e ajude mais pessoas a conquistarem a liberdade financeira!

Jornada do Investidor
Nossa missão é democratizar o acesso à educação financeira, trazendo conteúdos práticos e diretos para quem quer começar a investir e organizar suas finanças.
Conheça o autor →



