Renda Fixa Eterna Chegou ao Blockchain

CARLOS CARVALHO

Perpetual Bonds Tokenizados: Como o Título Que Nunca Vence Está Sendo Recriado nos Trilhos da Blockchain?
Imagine um título que paga juros todos os anos e jamais tem uma data prevista para devolver o dinheiro que você emprestou. Soa como pegadinha — mas o governo britânico utilizou títulos perpétuos desde o século XVIII e só resgatou o 3½% War Loan, associado ao financiamento da Primeira Guerra Mundial, em 2015. Agora, a ideia ressurge com roupa nova, registrada em blockchain. E quem olhar só o rótulo pode pagar caro pelo brilho.
O Que Faz um Título Ser Perpétuo?
Um perpetual bond não tem data de vencimento predeterminada. O emissor não se compromete a devolver o principal em uma data final, e o investidor depende das condições contratuais para receber os cupons, solicitar eventual resgate ou vender o ativo. Isso não significa que todo perpétuo pague juros incondicionalmente: algumas estruturas permitem taxas variáveis, suspensão de pagamentos ou mecanismos de absorção de perdas.
Em um título perpétuo de cupom fixo, a conta básica é relativamente simples: o valor teórico corresponde ao cupom anual dividido pela taxa de retorno exigida pelo mercado, supondo pagamentos indefinidos, risco de crédito desconsiderado e ausência de cláusulas que alterem os fluxos.
Um título que paga US$ 8 por ano, quando o mercado exige retorno de 8% ao ano, vale US$ 100. Se a taxa exigida subir para 10%, o valor teórico cai para US$ 80. São 20% de queda no preço, sem que seja necessário ocorrer um calote.
A duration ajuda a entender essa sensibilidade, mas é importante distinguir duas medidas. Nesse exemplo, a duration de Macaulay é de aproximadamente 13,5 anos, enquanto a duration modificada, usada para estimar a variação percentual do preço diante de pequenas mudanças na taxa exigida, é de aproximadamente 12,5 anos.
A duration modificada indicaria, em uma aproximação linear, uma queda de cerca de 25% diante de uma alta de dois pontos percentuais na taxa. Mas essa aproximação perde precisão em movimentos maiores: o cálculo exato do exemplo leva o preço de US$ 100 para US$ 80, uma queda de 20%. A convexidade explica parte dessa diferença.
O recado permanece: um perpétuo de cupom fixo pode ser muito sensível às taxas de juros. Quando o retorno exigido pelo mercado sobe, o preço tende a cair; quando cai, o preço tende a subir. Para títulos de cupom variável, a análise exige considerar também a forma como os pagamentos são reajustados.
E perpétuo não quer dizer garantido. Em março de 2023, no contexto da aquisição do Credit Suisse pelo UBS, a autoridade reguladora suíça FINMA determinou a baixa integral de aproximadamente CHF 16,5 bilhões em valor nominal de títulos bancários AT1. Os acionistas do Credit Suisse receberam contrapartida na operação, enquanto os detentores desses instrumentos perderam o valor dos títulos.
O episódio tornou-se objeto de controvérsia jurídica. Em outubro de 2025, um tribunal administrativo federal suíço anulou a decisão da FINMA em um julgamento parcial, mas a autoridade recorreu. A disputa reforça um ponto essencial: cláusulas contratuais e regras de resolução bancária importam, e nem mesmo sua interpretação está livre de contestação.
Onde a Tokenização Entra na História?
Tokenizar é representar digitalmente direitos sobre um ativo ou título por meio de tokens registrados em uma rede blockchain. Dependendo da estrutura jurídica e operacional, esse registro pode integrar o sistema oficial de titularidade ou funcionar em conjunto com custodiante, agente de registro, depositário e outros intermediários.
A tecnologia pode facilitar transferências, fracionamento e automação de determinadas operações. Em algumas estruturas, pagamentos podem ser enviados a uma carteira digital ou reinvestidos automaticamente. Mas nem toda emissão funciona assim, e a liquidação não se torna instantânea ou disponível 24 horas por dia apenas porque existe uma blockchain: tudo depende da infraestrutura, dos meios de pagamento e das regras aplicáveis.
A natureza econômica e jurídica do crédito continua sendo fundamental. Um token pode representar um direito contratual contra um emissor, uma participação em um veículo ou outro tipo de exposição. A palavra “tokenizado”, sozinha, não informa qual direito o investidor possui nem como poderá exercê-lo.
O caso mais curioso vem das Ilhas Marshall. Em novembro de 2025, foram divulgados os termos de um programa soberano de títulos perpétuos tokenizados, com taxa ajustável e oferta inicial prevista de até US$ 100 milhões. O instrumento, conhecido como USDM1, é denominado em dólares e tem como garantia títulos de curto prazo do Tesouro dos Estados Unidos mantidos em estrutura de custódia segregada. O projeto foi apresentado como o primeiro programa de títulos tokenizados desse tipo estabelecido por um governo soberano.
Os juros são capitalizados em novas unidades, em vez de necessariamente serem pagos em dinheiro ao investidor a cada período. Os termos preveem resgate ao valor nominal em dólares, sujeito aos procedimentos contratuais e operacionais aplicáveis. Portanto, o título não tem vencimento predeterminado para o emissor, mas oferece ao detentor uma possibilidade contratual de saída.
Há, contudo, uma ressalva importante. Em setembro de 2026, o Fundo Monetário Internacional informou que o trabalho de infraestrutura e aproximação de investidores ainda continuava, que a base de investidores era predominantemente doméstica e que a perspectiva de emissão externa permanecia uma preocupação. O FMI também destacou incertezas relacionadas à demanda, à infraestrutura digital e à capacidade de supervisão. Assim, o USDM1 é um experimento relevante, mas não deve ser apresentado como um produto global já consolidado e amplamente acessível.
O desenho combina características de um título soberano perpétuo com uma possibilidade de resgate contratual. Isso o diferencia dos consols clássicos, nos quais o investidor normalmente depende da venda do título no mercado secundário para sair antes de um eventual resgate pelo emissor.
O Laboratório Fora da Blockchain
O apetite por instrumentos perpétuos de taxa ajustável aparece também em Wall Street. A Strategy, empresa conhecida por acumular bitcoin em seu balanço, lançou em 29 de julho de 2025 a STRC, uma ação preferencial perpétua que começou com uma taxa anualizada de dividendos de 9%. Desde julho de 2026, a taxa anunciada é de 12% ao ano, com revisão periódica segundo a política da empresa.
A distinção é importante: a STRC não é um título tokenizado nem possui bitcoins especificamente vinculados como garantia da emissão. É uma ação preferencial negociada na Nasdaq. Sua remuneração está sujeita aos termos da emissão, e a taxa pode ser ajustada; o pagamento depende das condições previstas nos documentos do instrumento. A estrutura também coloca seus titulares atrás dos credores na hierarquia de pagamentos da companhia, embora à frente dos acionistas ordinários.
Além disso, uma taxa anualizada de 12% não equivale automaticamente a um retorno efetivo de 12% para quem compra a ação. O preço de mercado pode variar em relação ao valor declarado, alterando o rendimento calculado sobre o preço pago.
A STRC é, portanto, um exemplo da procura por instrumentos perpétuos de remuneração ajustável — não um exemplo de título tokenizado ou de renda garantida.
O Tamanho Real do Mercado
Os fundos e instrumentos ligados a Treasuries tokenizados, uma porta de entrada importante para investidores institucionais, cresceram rapidamente. Segundo o painel do RWA.xyz, o valor distribuído em fundos tokenizados de títulos do Tesouro dos Estados Unidos chegou a aproximadamente US$ 14,5 bilhões em 22 de outubro de 2026.
O conjunto dos ativos reais tokenizados, excluindo stablecoins, já ultrapassava US$ 38 bilhões no início de outubro de 2026. Esses números mostram que a tokenização está deixando de ser apenas uma experiência de nicho, embora os diferentes segmentos apresentem níveis muito distintos de maturidade e liquidez.
A escala, porém, continua pequena diante do mercado tradicional. O volume de Treasuries em circulação nos Estados Unidos alcançou aproximadamente US$ 31,8 trilhões em setembro de 2026. A comparação serve para dimensionar a diferença de tamanho, embora os fundos tokenizados e o estoque total de títulos públicos não sejam categorias perfeitamente equivalentes.
E há uma distinção decisiva: o crescimento dos fundos tokenizados ligados a Treasuries não significa que os títulos perpétuos tokenizados tenham alcançado a mesma escala. Esses instrumentos continuam sendo um nicho dentro de um mercado de ativos tokenizados que ainda está em desenvolvimento.
Os Riscos Que o Brilho Esconde
O primeiro risco é jurídico. O token vale o que a estrutura de emissão e os contratos efetivamente asseguram. Se a relação entre o registro digital e o direito de crédito for frágil ou pouco clara, a existência do token não garante que o titular consiga exercer seus direitos com facilidade.
O segundo é a liquidez. A tokenização pode facilitar transferências e reduzir barreiras operacionais, mas não cria automaticamente compradores. Estudos recentes sobre o mercado de títulos e ativos tokenizados indicam que a liquidez varia bastante de acordo com o produto, os investidores elegíveis, as regras de transferência e a estrutura do mercado secundário. Em alguns segmentos, a negociação permanece limitada. Para um perpétuo, essa diferença é crucial: se o investidor não dispuser de resgate contratual, dependerá da existência de alguém disposto a comprar seu título.
O terceiro são as cláusulas. Taxas variáveis, suspensão de pagamentos, resgate antecipado e mecanismos de conversão ou baixa podem alterar significativamente o resultado. Essas possibilidades não existem da mesma forma em todos os instrumentos: é necessário consultar os termos específicos antes de investir.
O quarto é o risco técnico e operacional. Falhas em contratos inteligentes, vulnerabilidades de segurança, problemas de custódia, erros na gestão das chaves digitais ou indisponibilidade de plataformas podem prejudicar o acesso e a movimentação dos tokens.
Há ainda o risco de crédito e de execução. Mesmo quando um título conta com garantia em ativos de alta qualidade, é preciso avaliar a custódia, a segregação dos recursos, a prioridade jurídica da garantia e os procedimentos para executá-la em caso de inadimplência. A garantia reduz determinados riscos, mas não elimina automaticamente todos eles.
No Brasil, um token que represente digitalmente um valor mobiliário tradicional, um certificado de recebíveis ou um contrato de investimento coletivo ofertado publicamente pode estar sujeito às regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), dependendo das características da operação. A tecnologia utilizada não determina, sozinha, a classificação jurídica do produto.
O Que Isso Significa Para o Seu Bolso?
Antes de olhar a taxa, faça três perguntas. Quem paga o cupom? O que acontece se ele for reduzido ou suspenso? Como eu saio do investimento?
Na terceira pergunta, examine se há um direito contratual de resgate, em quais condições ele pode ser exercido, quais custos estão envolvidos e se existe um mercado secundário efetivamente ativo. Se sua saída depender apenas de alguém querer comprar o token, trate o papel como investimento de risco e não como uma aplicação de liquidez garantida.
A blockchain pode modernizar a emissão, o registro e a transferência de ativos. Mas não elimina o risco de crédito, a sensibilidade aos juros, a possibilidade de perda nem a necessidade de compreender os contratos. A tecnologia é nova. A matemática do perpétuo, do século XVIII, continua a mesma.
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