Inadimplência Recorde: Seu Banco Aguenta?

CARLOS CARVALHO

Como ler os indicadores de qualidade do Banco Central e identificar problemas escondidos na carteira de crédito?
Em setembro de 2026, a inadimplência total do crédito ficou em 5,0%, estável no mês e 0,9 ponto percentual acima de um ano antes. Em agosto, havia atingido 5,05%, recorde da série iniciada em março de 2011. Em janeiro, era 4,2%.
A manchete assusta. Mas quem investe em bancos — ou mantém dinheiro depositado neles — precisa entender o que esse percentual revela e o que deixa de mostrar.
Primeiro, o retrato do sistema
As Estatísticas Monetárias e de Crédito do BC são mensais e consideram inadimplentes as operações com parcela em atraso há mais de 90 dias.
Em setembro, o índice foi de 6,6% no crédito livre e 2,9% no direcionado. Entre as famílias, ficou em 6,0% no total e 8,1% nas operações livres. A pressão é maior nas linhas concedidas às famílias em condições negociadas com as instituições. O crédito direcionado reúne operações com destinação específica, como imobiliário e rural.
Depois, banco por banco
A média esconde diferenças. O IF.data, do BC, reúne informações trimestrais contábeis, de crédito e de capital. Compare instituições com a mesma data-base e critério de consolidação. Os relatórios saem até 60 dias após os trimestres de março, junho e setembro, e até 90 dias depois de dezembro.
Consulte também balanços e notas explicativas. Já o Relatório de Estabilidade Financeira, semestral, avalia a resiliência do sistema e apresenta testes de estresse. Mostra como o conjunto reagiria a cenários adversos, mas não certifica a resistência individual de cada banco.
A pegadinha da Resolução 4.966
Em vigor desde 1º de janeiro de 2025, a Resolução CMN 4.966 substituiu o modelo de perda incorrida pelo reconhecimento de perda esperada. Em termos simples, os bancos passaram a estimar e provisionar perdas com maior antecedência.
A mudança também afetou o momento em que certas operações são baixadas para prejuízo. Alguns créditos inadimplentes permaneceram mais tempo nos balanços, elevando o indicador de atrasos acima de 90 dias sem que toda a alta representasse piora equivalente nos pagamentos.
Em setembro de 2025, o BC estimou que cerca de 70% do aumento da inadimplência até junho daquele ano estava associado à mudança regulatória. A estimativa vale para aquele período, não para a inadimplência atual. Compare bancos sob a mesma regra e observe a trajetória por vários trimestres.
Os quatro números que separam um banco do outro
O primeiro é a inadimplência acima de 90 dias, fotografia do estoque de créditos que chegaram a esse estágio.
O segundo é a formação de inadimplência: o fluxo de operações que entram em atraso relevante. Pode antecipar a deterioração do estoque, mas confira a metodologia, pois renegociações, recuperações, vendas e baixas também alteram o saldo.
O terceiro é o índice de cobertura: provisões divididas pelo saldo inadimplente. Com R$ 70 bilhões em provisões e R$ 50 bilhões em atrasos acima de 90 dias, a cobertura é de 140%. Se cair enquanto a inadimplência sobe, investigue. Como as provisões consideram perdas esperadas em diferentes estágios, esse índice é referência comparativa, não garantia de recuperação.
O quarto é o custo do crédito, geralmente calculado pela despesa líquida de provisões em relação à carteira média. Ele mostra quanto o risco consome do resultado. Como as fórmulas variam, confira a definição em cada balanço.
Atenção às baixas para prejuízo: quando o banco retira um crédito do balanço, a inadimplência pode melhorar sem que o cliente tenha pago. Examine o volume baixado e as recuperações.
O que a carteira conta?
Carteiras concentradas em cartão e crédito pessoal sem garantia tendem a ficar mais expostas do que aquelas com maior participação de consignado, financiamento imobiliário ou operações garantidas. Não é regra absoluta: concentração de clientes, qualidade das garantias e critérios de concessão também pesam.
Em junho de 2026, a taxa média anualizada do rotativo do cartão chegou a 442,4%. É uma taxa anualizada, não a cobrança efetiva de doze meses para cada cliente. Nas operações abrangidas pela regra, juros e encargos acumulados não podem superar 100% do valor original da dívida.
Mesmo após cinco cortes consecutivos, a Selic chegou a 13,75% ao ano em setembro de 2026. Em agosto, Milton Maluhy, presidente do Itaú, afirmou preferir abrir mão de crescimento e participação de mercado a assumir o risco de lidar com mais inadimplência. Quando um grande banco reduz o apetite por expansão, o ciclo de crédito merece atenção.
Montando o seu painel
Acompanhe mensalmente os dados do BC por modalidade. A cada trimestre, compare inadimplência, formação, cobertura e custo do crédito. Cruze-os com o índice de Basileia — capital regulatório em relação aos ativos ponderados pelo risco — e indicadores de liquidez.
Se o lucro cair por causa das provisões, mas a cobertura permanecer robusta e o capital estiver confortável, o mercado pode estar exagerando. Se a cobertura recuar, a inadimplência avançar e a carteira crescer nas modalidades mais arriscadas, o desconto nas ações talvez tenha fundamento.
Não julgue um banco por um único indicador nem confunda melhora contábil com recuperação efetiva dos créditos. Isto não é recomendação de investimento.
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