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Dumbbell no Tesouro: liquidez na ponta curta e prêmio de prazo na longa

Carlos Carvalho

CARLOS CARVALHO

6 nov, 20265 min leitura
Dumbbell no Tesouro: liquidez na ponta curta e prêmio de prazo na longa

Como combinar títulos de vencimentos distantes e reduzir a exposição ao miolo da curva?


Na quinta-feira (5), após o Copom manter a Selic em 13,75% e interromper cinco cortes consecutivos, o IPCA+ 2050 chamou atenção. Na comparação da manhã, o preço caiu de R$ 883,61 para R$ 868,51 (1,71%), enquanto a taxa real passou de 7,40% para 7,48% ao ano. Poucos pontos-base podem provocar oscilações relevantes em papéis longos.


A estratégia dumbbell, ou “halteres”, combina essa exposição com uma posição de baixa sensibilidade aos juros, concentrando a carteira nas duas pontas da curva.


Halteres: duas pontas, funções diferentes

De um lado, fica um título que oferece liquidez e estabilidade relativa. Do outro, um papel longo, capaz de contratar uma taxa real por período extenso, mas sujeito a oscilações expressivas antes do vencimento.


Os vencimentos intermediários são reduzidos ou excluídos, mas isso não significa que sejam sempre inferiores. Podem atender a objetivos de prazo médio e oferecer boa relação entre risco e retorno, conforme a curva. O dumbbell é uma escolha de construção de carteira, não uma fórmula universal.


As duas pontas na prateleira do Tesouro

Na ponta de menor sensibilidade, o Tesouro Selic 2031 aparecia com remuneração de Selic + 0,1064% ao ano. Por acompanhar a taxa básica, tende a oscilar menos que um IPCA+ longo e pode fornecer liquidez para rebalanceamentos. Ainda assim, não é imune a variações de preço.


Na ponta longa, o IPCA+ 2050 oferecia IPCA + 7,48% ao ano. O IPCA+ 2040 pagava 7,62%, e o IPCA+ 2032, 7,92%. A curva real estava invertida: o vencimento mais distante não pagava a maior taxa. Sua escolha se justificava pela exposição mais longa à taxa real, caso mantida até o vencimento e compatível com o objetivo do investidor. Cotações mudam ao longo do pregão.


A conta do halter

Imagine R$ 100 mil divididos igualmente: R$ 50 mil no Tesouro Selic 2031 e R$ 50 mil no IPCA+ 2050. Uma duração modificada próxima de 22 anos indica que uma alta de 0,10 ponto percentual na taxa real pode reduzir o preço do título longo em cerca de 2,2%. Uma variação de 0,08 ponto é compatível com queda próxima de 1,7%, como no exemplo inicial.


Se a taxa real do IPCA+ 2050 subisse um ponto percentual, a posição longa poderia perder perto de 20%. Como representa metade da carteira, o impacto no conjunto ficaria próximo de 10%, supondo pouca variação na perna Selic. Se a taxa caísse um ponto, a valorização da perna longa poderia se aproximar de 25%, levando a carteira a um ganho em torno de 12,5%. São simulações aproximadas de marcação a mercado, sem incluir o carrego.


A convexidade ajuda a explicar a assimetria: para variações iguais, a alta potencial do preço quando os juros caem tende a superar a perda quando sobem. O resultado depende do prazo e das condições de mercado.


Rebalanceamento, liquidez e custos

Defina os pesos e uma regra de revisão: semestralmente ou quando a ponta longa se afastar dez pontos percentuais do alvo. O rebalanceamento pode exigir vender o que subiu e comprar o que caiu; não garante lucro.


O Tesouro Direto oferece liquidez diária, mas o resgate antecipado é feito pelo preço de mercado. Em títulos longos, a alta das taxas pode reduzir bastante o valor recebido. Em 27 de outubro, sob pressão dos juros, o Tesouro cancelou um leilão de LFT e recomprou NTN-Bs com vencimentos entre 2030 e 2045 para conter a volatilidade e preservar o funcionamento do mercado. Essa intervenção não é sinal confiável sobre a direção futura das taxas.


Considere ainda o Imposto de Renda sobre os rendimentos: 22,5% até 180 dias; 20% de 181 a 360 dias; 17,5% de 361 a 720 dias; e 15% acima de 720 dias. A custódia da B3 é de 0,20% ao ano. No Tesouro Selic, o estoque de até R$ 10 mil por CPF é isento; a cobrança incide sobre o excedente. O IR é recolhido sobre o ganho realizado no resgate, vencimento ou pagamento de juros, e não sobre uma oscilação apenas exibida no extrato.


Para quem a estratégia pode fazer sentido?

O dumbbell pode ser avaliado por quem tem objetivos de longo prazo compatíveis com o vencimento escolhido, mantém a reserva de emergência separada e tolera oscilações na parcela longa. Não é adequado para recursos necessários em breve. Para a reserva, o Tesouro Selic costuma combinar melhor com a prioridade de liquidez e baixa volatilidade.


A estratégia não prevê os juros: combina liquidez e exposição ao prazo para enfrentar cenários diferentes, sem eliminar riscos ou garantir resultados. Isto não é recomendação de investimento.


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