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Barbell Temporal: Por Que Evitar o Meio?

Carlos Carvalho

CARLOS CARVALHO

31 out, 20265 min leitura
Barbell Temporal: Por Que Evitar o Meio?

Como combinar títulos de vencimento curto e longo para equilibrar liquidez e convexidade — e entender quando o miolo da curva oferece taxas melhores.


Imagine uma barra de halteres: peso numa ponta, peso na outra e pouco ou nenhum peso no meio. Daí vem o nome barbell. Na renda fixa, a estratégia consiste em concentrar parte da carteira em títulos de vencimento curto e outra parte em títulos longos, reduzindo a exposição aos prazos intermediários.


Parece estranho? Em momentos de forte volatilidade, essa estrutura pode fazer sentido. Mas existe uma ressalva importante: evitar o meio não significa que ele seja sempre ruim. A escolha depende da curva de juros, dos objetivos e do risco que o investidor aceita assumir.


Como a estratégia funciona?

A ponta curta é responsável pela liquidez. No Brasil, pode incluir Tesouro Selic e CDBs com liquidez diária. Esses instrumentos têm baixa sensibilidade às mudanças nas taxas de juros, permitindo movimentar recursos com menos oscilação de preço.


A ponta longa busca aproveitar taxas reais contratadas por períodos maiores. É o território de títulos como o Tesouro IPCA+ com vencimentos em 2045 ou 2050. Ao comprar um desses papéis, o investidor fixa uma taxa acima da inflação, desde que mantenha o título até o vencimento e o Tesouro cumpra suas obrigações.


O miolo da curva fica com participação reduzida. A lógica é combinar a flexibilidade dos vencimentos curtos com a exposição de longo prazo, sem concentrar toda a carteira em títulos intermediários.


Isso não significa que a ponta longa sempre pague mais. Dependendo do formato da curva, o investidor pode encontrar taxas reais superiores justamente nos vencimentos intermediários.


Duration e convexidade, sem mistério

Duration mede a sensibilidade do preço de um título às mudanças nas taxas de juros. Como aproximação, um título com duration modificada de 10 anos pode perder cerca de 10% do preço se sua taxa subir um ponto percentual. Se a taxa cair na mesma proporção, a valorização tende a ser um pouco superior a 10%, considerando a convexidade positiva.


Convexidade descreve essa curvatura na relação entre preço e taxa. Em títulos tradicionais sem opções embutidas, ela faz com que a valorização provocada por uma queda dos juros seja maior do que a perda provocada por uma alta equivalente.


Aqui está a principal vantagem técnica do barbell: numa comparação simplificada entre carteiras com a mesma duration, uma estrutura concentrada nas duas pontas tende a apresentar convexidade maior do que uma carteira concentrada no meio. Isso pode favorecer o investidor diante de movimentos expressivos e paralelos nas taxas.


Mas atenção: convexidade não é proteção contra qualquer cenário. Se a curva se movimentar de maneira desigual — com os juros curtos subindo e os longos caindo, por exemplo — o resultado dependerá de como cada vencimento reagir.


O teste da vida real

A semana da eleição presidencial mostrou como a renda fixa também pode sofrer choques intensos.


Após a reeleição de Lula, em 25 de outubro, o mercado reagiu fortemente no pregão seguinte. Entre as operações do Tesouro realizadas em 22 e 26 de outubro, a taxa do título prefixado com vencimento em 2031 passou de 12,86% para 15,79% ao ano.


Na segunda-feira, 26, o Tesouro Direto suspendeu temporariamente as negociações pela manhã devido à volatilidade. O Tesouro Nacional cancelou leilões de venda e realizou operações de recompra, que totalizaram R$ 14,8 bilhões naquele dia.


Quem estava concentrado em títulos de baixa duration teve menor exposição à queda de preços. Já quem carregava títulos longos viu a marcação a mercado mostrar perdas expressivas. Essas perdas, entretanto, não alteram a taxa contratada para quem mantém o título até o vencimento.


A ponta curta oferece flexibilidade para novos investimentos, mas não significa dinheiro automaticamente disponível em qualquer circunstância. Resgates podem enfrentar suspensões operacionais e condições específicas de liquidação.


O que os números de 27 de outubro revelaram?

Às 10h da terça-feira, 27, o Tesouro Direto apresentava estas taxas:


  • Tesouro IPCA+ 2032: IPCA + 7,84% ao ano.
  • Tesouro IPCA+ 2040: IPCA + 7,78% ao ano.
  • Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2045: IPCA + 7,55% ao ano.
  • Tesouro IPCA+ 2050: IPCA + 7,16% ao ano.


A fotografia da curva mostrava uma situação interessante: os vencimentos mais longos ofereciam taxas reais menores do que os intermediários. Portanto, naquele momento, quem escolhesse o barbell abriria mão de algumas das taxas mais elevadas disponíveis no miolo.


Existe também uma diferença importante na comparação: o título de 2045 paga juros semestrais, enquanto os demais da lista não têm essa mesma estrutura de pagamentos. Isso altera o fluxo de caixa e exige cuidado ao comparar as rentabilidades.


A estratégia, portanto, não se sustentava naquele cenário por oferecer necessariamente a maior taxa. Seu argumento principal era a combinação entre liquidez, distribuição do risco de juros e convexidade.


Custos e armadilhas

O Tesouro Direto segue a tabela regressiva de Imposto de Renda: 22,5% para aplicações de até 180 dias, 20% entre 181 e 360 dias, 17,5% entre 361 e 720 dias e 15% acima de 720 dias. Resgates antes de 30 dias também podem sofrer incidência de IOF.


A B3 cobra custódia de 0,20% ao ano. No Tesouro Selic, há isenção sobre os primeiros R$ 10 mil por CPF, com cobrança apenas sobre o excedente. A instituição financeira também pode cobrar tarifas.


A ponta longa exige tolerância a oscilações. Se os juros subirem, o preço do título pode cair bastante. Quem precisar vender antecipadamente poderá transformar a perda temporária em prejuízo efetivo.


Como pensar na prática

Um exemplo didático seria combinar Tesouro Selic com Tesouro IPCA+ de prazo longo. Uma divisão de 50% para cada lado pode ajudar a visualizar a estrutura, mas não deve ser tratada como proporção recomendada.


O peso de cada ponta precisa considerar a duration total da carteira, os objetivos financeiros, a necessidade de liquidez e a capacidade de suportar oscilações. Dividir o capital igualmente não significa dividir o risco igualmente.


A revisão periódica também é importante. Se a participação dos títulos longos cair muito em relação à meta estabelecida, o investidor pode avaliar um rebalanceamento com recursos da ponta curta, sem transformar cada oscilação em uma ordem automática de compra ou venda.


O próximo Copom acontece nos dias 3 e 4 de novembro. Em 29 de outubro, as opções negociadas na B3 indicavam probabilidade de 63,1% de manutenção da Selic em 13,75% ao ano. Essa expectativa pode mudar, mas a estratégia barbell não exige acertar a próxima decisão do Banco Central.


Seu verdadeiro propósito é outro: construir uma carteira capaz de combinar flexibilidade e exposição de longo prazo, sem depender de uma única aposta sobre a direção dos juros.


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Por que ler? Cerbasi apresenta princípios importantes para separar recursos de liquidez imediata daqueles destinados a objetivos de longo prazo. Essa organização ajuda a compreender a lógica por trás do barbell, mesmo que o livro não se aprofunde na modelagem técnica de duration e convexidade.

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