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Cobertura de Juros: Seu Radar de Calote

Carlos Carvalho

CARLOS CARVALHO

4 nov, 20265 min leitura
Cobertura de Juros: Seu Radar de Calote

Como o Interest Coverage Ratio mede a capacidade de uma empresa de pagar juros e ajuda a identificar riscos na renda fixa antes que virem manchete?


No 2T26, a Raízen apresentou cobertura de juros de apenas 0,19 vez, segundo o Credit Research do Safra: para cada R$ 1 de despesa financeira, o EBITDA considerado no indicador correspondia a R$ 0,19. Em junho, a companhia apresentou plano de recuperação extrajudicial envolvendo R$ 64,7 bilhões em créditos; homologado em 30 de julho, o reperfilamento efetivo foi noticiado em cerca de R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras.


O preço de uma debênture costuma reagir quando o mercado já percebeu o risco. Indicadores de crédito ajudam a procurar sinais anteriores, embora não prevejam sozinhos o desfecho.


O que o índice responde?

O Interest Coverage Ratio (ICR), ou índice de cobertura de juros, pergunta se o resultado operacional da empresa é suficiente para cobrir os juros da dívida.


Na versão clássica, divide-se o EBIT — lucro antes de juros e impostos — pela despesa de juros. Se uma companhia gera R$ 300 milhões de EBIT e registra R$ 100 milhões em juros, sua cobertura é de 3 vezes.


Alguns analistas usam EBITDA no numerador. Como ele adiciona de volta depreciação e amortização, costuma elevar a cobertura, mas ignora o desgaste dos ativos e o investimento para mantê-los. E despesa financeira pode incluir variação cambial, encargos e derivativos, não apenas juros. Confira a metodologia antes de comparar indicadores.


Como interpretar o número?


Não existe régua universal. Abaixo de 1 vez, o resultado não cobre os encargos considerados; entre 1 e 2, a folga tende a ser estreita; acima de 3, há mais margem. São referências heurísticas: concessões e negócios com receita previsível têm características diferentes de empresas cíclicas. Compare pares com a mesma fórmula e período.


O retrato brasileiro no 2T26

No 2T26, a Selic caiu de 15% para 14,25%, após três cortes de 0,25 ponto iniciados em março. Novas reduções levaram a taxa a 13,75% em setembro. Dívidas pós-fixadas ao CDI tendem a refletir o movimento mais rapidamente; prefixadas mantêm as condições contratadas até renegociação ou refinanciamento. Nas indexadas à inflação, o custo também depende do índice de preços e do juro contratado.


O Safra acompanhou 58 grupos; em um painel balanceado de 56, com dados nos dois períodos, a cobertura agregada avançou de 1,36 para 1,42 vez nos últimos 12 meses encerrados no 2T26, ante igual período anterior. Entre as empresas comparáveis, a parcela com cobertura abaixo de 1 vez subiu de 16% para 23%. No saneamento, o indicador caiu para 0,79 vez. Ativos regulados, commodities e contratos longos mostraram maior resiliência.


O Monitor RGF-BizDoc registrou 6.341 empresas em recuperação judicial em junho, em seu recorte de matrizes ativas acima de microempresas; em maio, o pico do semestre havia sido de 6.513.


As armadilhas do indicador

A primeira é confiar em uma fotografia isolada. Observe de quatro a oito trimestres, de preferência os últimos 12 meses. Cair de 4 para 2,5 vezes é diferente de subir de 1,5 para 2,5.


A segunda é confundir EBIT com EBITDA. Em companhias que exigem investimentos elevados para conservar fábricas, rodovias ou frotas, o EBITDA pode transmitir uma folga que desaparece quando se considera o capex. Examine também o fluxo de caixa operacional e os investimentos recorrentes.


A terceira envolve juros capitalizados. Em certos projetos, encargos da construção são incorporados ao custo do ativo, não registrados imediatamente como despesa. Consulte as notas explicativas e os dados de juros pagos para avaliar o efeito.


A quarta é ignorar os vencimentos. Boa cobertura não resolve uma concentração de amortizações em poucos meses, especialmente quando faltam caixa ou acesso a crédito. Cruze o índice com caixa disponível, dívida líquida e cronograma de pagamentos.


Como usar na análise de renda fixa?

Use demonstrações financeiras, sites de relações com investidores e documentos enviados à CVM. Calcule EBIT dividido pelos juros dos últimos 12 meses e compare empresas do mesmo setor.


Examine também o prêmio da debênture. CDI mais 5%, contra CDI mais 2% dos pares, pode refletir risco de crédito, mas também liquidez, prazo, garantias, subordinação ou características da emissão.


Leia a escritura: covenants podem impor limites de alavancagem ou cobertura. O descumprimento pode ter consequências, inclusive vencimento antecipado, conforme os testes e prazos de cura previstos.


A cobertura não prevê o futuro nem substitui a análise do negócio, do caixa e da dívida. Mas, acompanhada ao longo do tempo, ajuda a avaliar se a geração operacional acompanha o peso dos compromissos financeiros.


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