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Lula Vence, Bolsa Desaba, Dólar Dispara

Carlos Carvalho

CARLOS CARVALHO

29 out, 20265 min leitura
Lula Vence, Bolsa Desaba, Dólar Dispara

Como o maior erro de aposta do mercado virou pânico?

A Virada Histórica Que Ninguém Precificou


A estatística, por si só, já seria manchete em qualquer semana comum. Luiz Inácio Lula da Silva venceu o segundo turno no domingo com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro — 64,2 milhões de votos contra 59,8 milhões. O detalhe que transforma o número em acontecimento histórico é outro: nunca, em toda a história eleitoral brasileira, um candidato que terminou em segundo lugar no primeiro turno havia revertido o resultado e vencido o segundo. Lula somou mais de dez milhões de votos entre os dois turnos, desfazendo de forma cabal a vantagem que Flávio Bolsonaro havia construído em outubro.


Pesquisas eleitorais erram, isso não é novidade. O que é novidade — e o que realmente move mercado — é o tamanho do descolamento entre o que estava precificado e o que efetivamente aconteceu. Nas semanas anteriores à votação, o capital que circulava em Faria Lima já tinha decidido, com grau de convicção raramente visto, qual seria o resultado de domingo. Estava errado.


O Dia em Que o Circuit Breaker Entrou em Cena

Na segunda-feira, primeiro pregão depois do resultado, o Brasil financeiro viveu sua pior sessão desde março de 2020 — e todo mundo sabe o que estava acontecendo em março de 2020. O Ibovespa desabou 13,88%, acionando o circuit breaker e interrompendo os negócios na B3 por meia hora. O dólar disparou 8,36%, para R$ 5,406, a maior valorização diária da moeda americana frente ao real em 23 anos. Os juros futuros subiram mais de 260 pontos-base num único dia. O índice do setor imobiliário caiu 28,63%; o de consumo, 26,14%. Oito papéis do Ibovespa perderam mais de 40% do valor entre a abertura e o fechamento.


Não foi uma correção. Foi uma reprecificação completa, de ponta a ponta, de um cenário que o mercado havia construído com excesso de certeza. O ETF EWZ, que replica ações brasileiras na Bolsa de Nova York e funciona como termômetro do capital estrangeiro, caiu quase 30% no mesmo dia — sinal de que o espanto não ficou restrito a quem opera por aqui.


Três Dias de Sangria, Um Ministério Ainda Vago

A terça-feira trouxe um respiro técnico, não uma recuperação: o Ibovespa caiu mais 0,51%, fechando a 175.710 pontos, enquanto dólar e juros futuros devolviam parte dos ganhos da véspera. Nesta quarta, porém, a sangria recomeçou com força — queda de 2,68%, a 171.006 pontos, terceira sessão seguida no vermelho. O motivo é simples de descrever e difícil de resolver: o mercado ainda não sabe quem vai comandar o Ministério da Fazenda no quarto mandato, e notícia de que a equipe econômica estuda cobrar Imposto sobre Operações Financeiras de títulos hoje isentos — LCI, LCA, CRI, CRA, debêntures incentivadas — só aumentou a desconfiança sobre a política fiscal que vem pela frente.


Enquanto o nome da Fazenda não sai, cada notícia solta vira motivo suficiente para vender. É assim que mercado se comporta diante de vácuo de informação: não espera confirmação, precifica o pior cenário plausível até ser desmentido.


O Fed Não Vai Salvar Ninguém Desta Vez

Para piorar a digestão doméstica, o cenário externo não ofereceu alívio nenhum nesta quarta. O Federal Reserve manteve a taxa de juros na faixa de 3,75% a 4,00%, decisão amplamente esperada, mas aprovada por apenas 10 votos a 2 — as dissidentes Lisa Cook e Beth Hammack queriam uma nova alta. Kevin Warsh, presidente do Fed, deixou a porta aberta para subir juros já em dezembro e negou que as eleições de meio de mandato americanas tenham pesado na decisão. Anunciou também que o banco central vai reduzir o número de reuniões de política monetária daqui para frente, trocando comunicação contínua por uma postura de observar e agir apenas quando necessário.


Tradução para quem precisa de capital estrangeiro entrando no Brasil: não existe corte de juros americano a caminho para aliviar o apetite por risco em emergentes. Pelo contrário, a possibilidade de dezembro trazer mais um aperto mantém o dólar global forte exatamente no momento em que o Brasil mais precisaria dele fraco.


O Preço de Apostar com Convicção Demais

Reunindo as peças: o mercado brasileiro passou semanas construindo uma posição baseada numa certeza que as urnas desmentiram por completo, e agora paga o preço dessa convicção em três sessões seguidas de perdas, sem rede de proteção externa à vista. Não é a primeira vez que isso acontece com o mercado brasileiro, e dificilmente será a última. A diferença, desta vez, é a magnitude: circuit breaker, maior alta cambial em 23 anos, maior queda da bolsa desde a pandemia — tudo isso resultado não de um evento externo imprevisível, mas de uma leitura equivocada de um evento que estava, literalmente, marcado no calendário havia meses.


Resta ao mercado agora fazer o que deveria ter feito antes: esperar os fatos — nome da Fazenda, desenho da política fiscal, sinalização sobre tributação — em vez de apostar neles com antecedência. A história recente já deu a esse tipo de erro um preço bem definido. Só falta aprender a lição antes da próxima vez.


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Por que ler? O Nobel de Economia explica por que a mente humana prefere atalhos intuitivos e convictos a cálculos cuidadosos de probabilidade — e por que essa preferência, em mercado financeiro, tem nome e sobrenome: excesso de confiança. Leitura indispensável para quem viu uma certeza de semanas virar pânico de três dias e quer entender exatamente onde o raciocínio coletivo falhou.

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